Abra a gaveta da direita…

Abra a gaveta da direita

Há alguns anos, quando fiz minha especialização em Administração de Recursos Humanos na FVG de São Paulo, o Prof. Paulo, da cadeira de Contabilidade, contava uma estória interessante e que se adapta perfeitamente, guardadas as devidas proporções, à realidade dos profissionais e executivos brasileiros.

Conta a estória que, um senhor, Contador da velha guarda, trabalhava em uma empresa há muitos e muitos anos, creio que há umas três ou quatro décadas. Era do tipo conservador, usava aquelas antigas viseiras plásticas (para os mais novos: tipo chapeuzinho de bookmaker) e cobertura de manga plástica, para não sujar as mangas da camisa, tipo bem característico dos anos 30, 40 ou 50 do século passado.

Este senhor era o Contador da empresa e nada na Contabilidade deixava de passar por seu crivo. Ele fazia questão de cuidar pessoalmente de todos os detalhes da sua área. Não deixava ninguém mexer em seus papéis e trazia a Contabilidade em dia e absolutamente em ordem.

Pontualmente, todos os dias pela manhã este senhor Contador ao chegar a sua mesa de trabalho, tirava o paletó, pendurava–o em um cabide ao lado de sua mesa, retirava de sua pasta um pacote com sua marmita e colocava-o em um canto da mesa. A seguir vestia a viseira e os punhos plásticos, sentava-se em seu posto de trabalho e, com a chave que trazia em um molho de chaves junto ao seu cinto, abria a primeira gaveta de sua mesa, lia algo que lá estava e trancava a gaveta novamente.

Após este ritual, ele iniciava seu trabalho. Todos que trabalhavam no escritório morriam de curiosidade em saber o que ele guardava de tão importante naquela gaveta, que todos os dias o fazia repetir aquele ritual.

Alguns anos mais tarde esse “velho Contador” veio a falecer.

Mal o caixão deste senhor baixou na sepultura, todos os colegas do escritório correram e foram dar um jeito de abrir a tal gaveta. A curiosidade e a ansiedade os estava matando. Quando abriram a fatídica gaveta o que encontraram? Dentro havia simplesmente uma folha de papel com as seguintes inscrições: “Débito do Lado Esquerdo e Crédito do Lado Direito”.

Por mais divertida e hilariante que seja esta estória, nos faz pensar que muitos dos profissionais e executivos brasileiros, deveriam ter uma gaveta assim do lado direito em sua mesa de trabalho.

Como assim? Alguém há de perguntar!

Em minha carreira de mais de 40 anos na área de Recursos Humanos, quer seja como profissional, executivo ou consultor, tenho encontrado inúmeros profissionais e executivos que esquecem qual é seu objetivo e razão pela qual aquela mesa lhe é destinada.

Uma vez contratados pelas empresas, cuidam mais de formar equipes, contratar amigos e conhecidos, dentro de perfis que venham a lhe ser fiéis, obedientes e servis. Querem estar cercados de profissionais que lhe façam coro. Profissionais que lhes sigam cegamente. Estão mais preocupados com seu status e, gastam grande parte do seu tempo se promovendo e mantendo sua posição. Querem ser endeusados e aclamados como excelentes chefes e vivem se cercando de puxa sacos e profissionais que os bajulam.

Os resultados são pífios, não importa! O importante é manter as aparências o status, ou a famosa “boquinha”. Sempre há alguém responsável por seu insucesso ou a situação econômica, o mercado ou o produto/serviço não está de acordo com que os clientes esperam.

Um dia acontece a demissão e é necessário achar os culpados. “A empresa não soube aproveitar seu potencial, não lhe deu oportunidades ou o mundo está contra ele”.

Não cuidou de seu aprimoramento profissional, não estudou, não aprendeu um novo idioma. E os objetivos da empresa! E os resultados! Nada! Vai para o mercado em busca de um novo emprego se achando o maior injustiçado do mundo. Fatalmente há uma forte tendência de não mais conquistar uma posição como a anteriormente possuída.

A Todos profissionais e executivos, se eu pudesse dar um conselho, diria:

Escreva uma pequena frase em uma folha de papel e a coloque na primeira gaveta à direita de sua mesa de trabalho. “Faça como o velho Contador”. Não é necessário trancar nem esconder de nenhum colega de trabalho ou subordinado. Faça melhor ainda, escreva esta frase e coloque em todas as primeiras gavetas da direita da mesa de sua equipe. A frase é fácil de escrever e fácil de ser lida. Mas não basta escrever e ler. É necessário segui-la.

Escreva bem grande e se possível em letras vermelhas:

“PARA QUÊ EU SOU PAGO?”


César de Lucca

César De Lucca, Vice-Presidente da Thomas Case & Associados e Coach.

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