Crise favorece a volta de executivos brasileiros do exterior – Terra

A crise internacional eleva o retorno de profissionais expatriados ao Brasil
Foto: Shutterstock

Com a difícil situação financeira vivida pelos Estados Unidos e pela Europa, parte dos executivos brasileiros que faziam carreira no exterior resolveram que é hora de voltar para casa. De acordo com dados da consultoria Thomas Case & Associados, especializada em gestão de pessoas, a busca de profissionais expatriados por oportunidades de emprego no Brasil aumentou cerca de 30% no primeiro semestre deste ano. A alta demanda de retorno é uma situação corrente desde o estouro da crise financeira americana em 2008 e, atualmente, os efeitos da crise na Europa – um dos usuais destinos dos que deixavam o Brasil há uma década – estão entre os principais fatores para a volta dos executivos.

O período complicado atravessado pelos mercados internacionais coincidiu com o crescimento expressivo da economia brasileira durante os últimos cinco anos, o que transformou o país em um foco atraente tanto para a transferência de expatriados a trabalho quanto para aqueles que chegam ao Brasil desvinculados dos empregadores estrangeiros, apostando no mercado brasileiro por sua própria conta e risco. “O perfil do executivo carrega essa disponibilidade; é um profissional que sempre busca desafios e se preparou a vida toda para isso”, afirma Ricardo Munhoz, diretor executivo da Thomas Case & Associados e da Case Consultores. Munhoz acrescenta que, no caso do executivo brasileiro, a vontade de retornar é outra característica que favorece o movimento. “O profissional que vai trabalhar no exterior sempre tem interesse em voltar por causa dos familiares, do clima, da cultura. Agora virou questão de unir o útil ao agradável”, explica.

A dinâmica é vantajosa também para as empresas estrangeiras que receberam os expatriados. Para as multinacionais que estão operando remanejo e corte de gastos por conta da crise, é mais cômodo retornar um brasileiro ao seu país de origem, onde o executivo irá se deparar com melhores salários e um mercado receptivo no qual ele será facilmente reinserido. Os grupos que planejam ampliar ou direcionar suas operações para o Brasil também se beneficiam mais com a volta dos expatriados do que arcando com as despesas necessárias para manter um funcionário estrangeiro no país. “Temos vários exemplos de multinacionais que estão em uma situação difícil no exterior e por aqui vão muito bem obrigado. Acaba sendo interessante tanto para o empregado quanto para o empregador”, conta Munhoz.

Devido aos investimentos no pré-sal e em grandes eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, Munhoz afirma que o Brasil deve manter um ritmo de crescimento estável até 2020 e ressalta que a remuneração oferecida no país tornou-se muito mais atrativa em comparação com gigantes estrangeiros: pesquisas de mercado internacional apontam que o salário nominal do executivo brasileiro já é mais alto que o dos profissionais de Nova York, Londres e Cingapura. “É interessante não só para o executivo, mas a mão de obra operacional também enfrenta uma escassez absurda. Hoje no Brasil, o profissional estratégico e o operacional se recolocam muito rapidamente, porque é nítida a carência de profissionais qualificados, e já tivemos um grande número de expatriados vindo dos EUA e do Japão”, diz o consultor.

Dos profissionais que chegam ao país, os mais beneficiados são os atuantes em áreas mobilizadas pelo “momento do Brasil”, que são foco de investimento pelo mercado durante o processo de preparação para a recepção dos eventos. Prestação de serviços, hotelaria, logística e infraestrutura são alguns dos segmentos em alta para a realização da Copa e da Olimpíada, e o investimento no pré-sal estimula a valorização da engenharia. Munhoz cita também as áreas de finanças, controladoria e tecnologia da informação, além da crescente importância assumida pelo profissional de recursos humanos no país. “As empresas começam a perceber que o profissional estratégico de RH tem um papel fundamental na gestão e melhoria do negócio, e o principal problema para elas é conciliar a captação de novos talentos e a retenção de profissionais”, afirma.

Consultor Ricardo Munhoz conta que os executivos viajam com a ideia de retornar
Foto: Thomas Case/ Divulgação

Retorno vantajoso

A procura das multinacionais estrangeiras por novos mercados também vem possibilitando que os expatriados voltem ao Brasil com uma nova ocupação. Residente no Brasil desde os oito anos, o canadense Daniel Perestrelo, 32 anos, viajou para o Canadá em busca de um empreendimento próprio e retornou do exterior com o negócio na bagagem: o empresário é hoje representante exclusivo da Dare, fábrica de biscoitos canadense há mais de 115 anos no mercado e com filiais nos Estados Unidos e na Europa.

Anteriormente gestor de tecnologia da informação em uma empresa privada, Perestrelo e a esposa chegaram ao Canadá em abril de 2011 após três anos e meio de planejamento para a viagem, cujo objetivo era encontrar um negócio que os dois pudessem trazer ao Brasil. Após muitas reuniões com os executivos da Dare – tanto para validar a parceria quanto para interá-los sobre o contexto brasileiro – o contrato foi firmado, e o empresário retornou ao país no final do ano. “Além da negociação em si, houve muita troca de informação para eles entenderem que aqui é um mercado promissor e poderem me dar autorização”, conta Perestrelo. Durante toda a estadia, o casal não fez planos de se estabelecer no país. “Não passou pela nossa cabeça abrir negócio ou conseguir emprego lá”, afirma.

Segundo o empresário, a boa estruturação econômica do Canadá o coloca na condição de país isento da crise financeira mundial. “Quem está sofrendo são as grandes multinacionais que tem operações nos EUA e na Europa, como é o caso da Dare, porque esses mercados consomem cada vez menos”, explica Perestrelo. Para evitar prejuízos, as empresas vêm pondo em prática estratégias de expansão, gerando oportunidades como a que foi garantida a ele. “Para a Dare, foi uma grande oportunidade ter um canadense com um conhecimento de mais de 20 anos de Brasil para expandir os negócios em um dos mercados que mais cresce no mundo”, explica o empresário.

No primeiro semestre de 2012, Perestrelo e a esposa cuidaram das questões burocráticas para a abertura da filial brasileira e realizaram testes com o público final oferecendo desgustações dos cookies em academias e no quiosque da Companhia Athletica durante a Maratona Internacional do Rio. O casal pretende inaugurar ainda neste ano um quiosque em um shopping da zona sul do estado, e projeta um faturamento aproximado de R$ 70 mil ao mês. Com a estabilização do real em relação ao dólar, a redução dos juros e a oferta de crédito, o empresário diz que o momento é o mais viável para abrir o negócio. “O timing é muito importante, não dava para fazer isso há cinco ou dez anos. O momento é preciso, então, nós estamos acreditando mesmo na economia brasileira”, afirma.


Ariel Cannal

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