Desafios na educação dos filhos quando se vive de malas prontas – Brasil Econômico

Executivos expatriados gastam mais para manter nível de estudo por conta da adaptação e da língua

Flávia Furlan

ffurlan@brasileconomico.com.br

A farra no recreio, a paquera nas aulas e a pressa para ir embora fazem parte da rotina de estudante. Mas na vida do engenheiro Jean Luc Senac, nem sempre foi assim. Como filho de expatriado, ele teve de estudar em casa por alguns anos para não se atrasar na grade curricular diante das frequentes mudanças de país. Com um ano, partiu da França para a Argélia com a família. Aos quatro foi para a África do Sul, aos dez para a Coreia e, aos 13, para a China. Isso enquanto o pai atuava como engenheiro na construção naval e de usinas nucleares.

“Sempre estudei em escolas francesas espalhadas pelo mundo ou por correspondência, de casa, com um instituto especializado que fica na França, que cuida de enviar aulas pelo correio e corrigir as provas”, afirma ele, que recebia as notas cerca de dois meses após enviar pelo correio os testes preenchidos. Quem colocava a casa em ordem era a mãe, que exigia quatro horas de estudo (das 9h às 13h) por dia, o mesmo tempo das escolas francesas.

O estudo em casa para os filhos é adotado por muitos expatriados cujo destino é um país com a língua totalmente diferente da original, que exige um tempo maior de adaptação, a exemplo de um brasileiro que vá à China, Rússia, ou Emirados Árabes Unidos. “Grande parte das empresas que desenvolvem plano de expatriação já tem essa opção de um professor particular no pacote”, afirma Ricardo Munhoz, Diretor Executivo da Thomas Case & Associados/Case Consultores.

O venezuelano Alberto Mondelli, presidente da consultoria Mercer, que vive no Brasil desde 2008, optou por colocar os filhos em uma escola em que a língua é o inglês. “Como expatriado, tive de colocar os meus filhos em uma escola internacional, para poder dar continuidade aos estudos se eu tiver de mudar do Brasil. Mas para isso foi necessário fazer planejamento financeiro”, conta ele, que considera o país um lugar com custo de vida elevado.

Apesar da distância das carteiras escolares, para Senac, o fato de ser filho de expatriado e ter de mudar de país foi boa para a sua carreira e para a vida pessoal: “Não me sinto mais apenas francês, mas cidadão do mundo. Falo inglês fluente, espanhol, português, viajei e morei em lugares diferentes e isso ensina a se adaptar em qualquer situação rapidamente”, conta ele, que saiu da França com um ano, voltou aos 15, se formou, foi trabalhar na Espanha e agora está no Brasil.

Como aspecto negativo de ter mudado muito de país, ele cita o fato de ter de recomeçar a fazer amizades. Quem se deparou com uma situação como esta foi Mondelli, porém na posição de pai de expatriado. “Minha segunda filha deixou muitas amizades para trás e sentiu muito isso.”

Munhoz, da Thomas Case, conta que enquanto filhos mais novos não têm tanta dificuldade em adaptação, os maiores têm maior resistência porque já possuem um convívio social. “O importante é conversar e convencer o filho explicando que é uma oportunidade a ser aproveitada, que tem como ponto positivo aprender uma nova cultura, uma nova língua e ter a possibilidade de estudar fora.”

Desta forma, os filhos dos expatriados conseguem desenvolver habilidades como capacidade de compreensão e uma fácil adaptação a mudanças, o que é importante na vida profissional principalmente para quem vai atuar em um mercado repleto de fusões e aquisições. Isso significa que a criança ou adolescente é um expatriado em potencial, mas que não necessariamente se tornará um deles. “Ele pode não querer a mesma experiência para os filhos”, diz Munhoz.


Ariel Cannal

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