Downgrade: quando avaliar a hora de dar um passo para trás

Placa de Sinalização

Existe um filme em exibição nos canais de TV paga que, ao mesmo tempo que dá uma verdadeira aula de coaching, também oferece uma exemplificação agradável de uma experiência bem-sucedida de downgrade de carreira. O título do filme é autoexplicativo: “Um senhor estagiário”. O ator Robert De Niro incorpora um personagem maduro, de 70 anos, viúvo, aposentado, que percebe rapidamente que a vida sem uma ocupação útil só lhe fará mal. Assim, aproveita uma oportunidade que aparece, e se torna estagiário sênior de uma jovem que havia criado um site de modas. A jovem, criativa e trabalhadora, mas inexperiente, começa a se valer da experiência e ponderação do estagiário e, em breve, ambos travam uma bonita amizade que funciona bem tanto no nível profissional quanto no pessoal.

É claro que a película tem os componentes necessários para uma narrativa romântica, mas mostra uma situação que se encaixa perfeitamente no que pretendo debater neste artigo: quando é vantagem aceitar um downgrade de carreira.

No momento em que escrevo, o Brasil enfrenta um nível recorde de desemprego, da ordem de mais de 13 milhões de pessoas. Considerando que a população economicamente ativa (PEA) no país é de aproximadamente 134 milhões de pessoas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entendemos que 10% das pessoas aptas a desempenharem uma ocupação remunerada estão sem emprego. Muitas dessas pessoas não conseguem se recolocar no mercado porque preferem esperar que surja uma posição na sua área de atuação, no mesmo nível que ocupava e com a mesma remuneração que percebia. O resultado, com o mercado em retração, é que essas vagas simplesmente não aparecem porque o empresariado não está investindo em funcionários de nível mais alto. Aguardam que soprem melhores ventos na economia, e enquanto isso não contratam – escolhem se arranjar com os funcionários que têm, deixando as contratações para um futuro melhor.

E, como não há emprego, os desempregados continuam desempregados.

Uma saída que, embora não sendo ideal é razoável para quem precisa pagar as contas e estar inserido no mercado de trabalho, é engolir o orgulho e aceitar um nível mais baixo de prestígio e de remuneração. Mas seria essa uma decisão acertada? Há prós e contras.

Por exemplo, um gerente desempregado pode aceitar uma posição de analista. Talvez seja uma solução para o problema imediato da falta de recursos, mas para a empresa é uma estratégia ruim. O empregador pode supor que terá um excelente analista porque o profissional tem experiência gerencial – mas não se iludam, pois esse profissional estará insatisfeito em pouco tempo. A não ser, evidentemente, que tenha observado uma possibilidade de ascensão em curto prazo para, dentro daquela própria empresa, voltar a assumir um posto gerencial. Mas a questão é que as empresas não se sentirão muito seguras de contratar alguém que certamente não permanecerá na equipe, escapando assim que houver um aquecimento do mercado.

Num outro exemplo, um gerente desempregado pode aceitar uma posição de consultor ou especialista. Nesses casos, o downgrade não fica muito evidente, uma vez que os salários praticados para essas funções não são muito diversos do salário de gerente, e o prestígio não é tão afetado.

De qualquer maneira, é preciso ter em mente que nem todo downgrade significa rebaixamento profissional. Desde que o profissional tenha um objetivo de retomada, com equilíbrio e sem açodamento, dar um passo atrás para poder dar dois passos à frente, mais adiante, representará uma alternativa viável e, muitas vezes, de sucesso.


Norberto Chadad | CEO das empresas Thomas Case & Associados e Fit RH Consulting
Norberto Chadad | CEO das empresas Thomas Case & Associados e Fit RH Consulting

Mestre em Alumínio pela Escola Politécnica, Mestre em Metalurgia pela USP, MBA pela Los Angeles University, Graduado em Economia pela FGV e Graduado em Engenharia Metalurgista pela Universidade Mackenzie

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