Mudar de área de atuação: loucura ou decisão coerente?

Homem indeciso sobre qual caminho tomar

O presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt tem uma frase marcante: “Se um dia alguém perguntar se sabes fazer alguma coisa, responda que sim e ponha-te imediatamente a aprender.”

Toda pessoa tem potencialidades. E toda pessoa tem vocação. Vou explicar. Um engenheiro, competente e preparado, também pode ser um excelente cozinheiro. Não há incongruência entre as duas atividades. Isso nos faz lembrar imediatamente do filme do cineasta João Batista de Andrade, “O engenheiro que virou suco”. Num outro exemplo, um jornalista especializado em economia, como Luís Nassif, é também um ótimo músico, inclusive fazendo parte de um grupo de choro, tocando magistralmente o bandolim.

São situações que nos levam a refletir sobre habilidades e competências.

O engenheiro, que domina a arte do seu campo de atuação, está dotado de habilidades técnicas. Caso tenha talento para a liderança, por meio da capacidade de comunicar, motivar, coordenar, liderar e resolver conflitos entre pessoas ou grupos, dominará também as habilidades humanas. E, ainda, se tiver a sagacidade de entender a organização onde trabalha, entendendo ideias, conceitos, fazendo o diagnóstico de situações para chegar à solução de problemas, estará dotado de habilidades conceituais. Para simplificar, a pessoa que aprende a dirigir um carro vai se aperfeiçoando, pelo hábito, a desempenhar cada vez melhor a tarefa de guiar, e torna-se hábil.

Já a competência diz respeito à maneira como um profissional aplica, de maneira integrada e coordenada o seu conjunto de conhecimentos técnicos, suas habilidades humanas e conceituais, por meio de atitudes que o fazem se destacar no conjunto dos profissionais de sua área de atuação. Para simplificar, o mesmo engenheiro pode conceber um novo tipo de veículo, envolver pessoas no projeto e na construção, aprender a guiar e ser bom em todas essas fases do processo. Torna-se competente.

Com estudo e dedicação, pode-se aprender muitas coisas.

Pode-se observar, portanto, que o engenheiro preparado, consciente de suas habilidades e competências, não precisa se manter escravo da engenharia pela vida toda. Pode muito bem abrir um restaurante. Usará as habilidades conceituais para idealizar o projeto, pesquisar o mercado, analisar as tendências do público, planejar as etapas. Usará as habilidades humanas para selecionar pessoal, motivá-los para se envolverem no projeto, treiná-los com adequada comunicação. E usará as habilidades técnicas para transpor da engenharia para a gastronomia os conhecimentos aplicáveis – e quando não souber como fazer, vai estudar, fazer cursos, se aperfeiçoar.

O mesmo poderá acontecer com o jornalista que se cansou da vida corrida das redações e das reportagens para se dedicar à música. As etapas são praticamente as mesmas.

No entanto, o que não se pode fazer é contrariar a vocação. Não adianta ao jornalista que quer ser músico se aventurar em abrir um restaurante. Nem adianta ao engenheiro que quer virar chef se aventurar na vida de músico. É fácil verificar os fracassos que testemunhamos a toda hora, em nosso meio. O arquiteto que virou professor sem dominar a didática; a decoradora que escolheu o coaching como alternativa de negócios, mas não se preparou corretamente; o carpinteiro que abriu um bar e bebeu o estoque; o desenhista que seguiu, sem se aprofundar, para a computação – nenhum deles respeitou a sua vocação.

Mudar de área não é loucura, como vimos. Desde que a escolha seja coerente, será um trunfo na manga, em tempos de instabilidades econômica e política que o Brasil atravessa.


Norberto Chadad | CEO das empresas Thomas Case & Associados e Fit RH Consulting
Norberto Chadad | CEO das empresas Thomas Case & Associados e Fit RH Consulting

Mestre em Alumínio pela Escola Politécnica, Mestre em Metalurgia pela USP, MBA pela Los Angeles University, Graduado em Economia pela FGV e Graduado em Engenharia Metalurgista pela Universidade Mackenzie

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