Tabu na Pele – Revista Campus (Jornal A Tribuna)

Um desenho, frase, palavra, letra ou símbolo que quando marcados na pele se tornam arte. A tatuagem já foi usada para identificar bandidos, enfeitar poderosos, juntar tribos, expor preferências e esconder imperfeições. E depois de mais de quatro mil anos do seu surgimento, ela ainda é feita com agulhas.

Perseguida em vários momentos da história, foi banida por decreto papal no século 8 e,no século 20, acabou boicotada em Nova York devido a um surto de hepatite. Mas, apesar dessa relação conturbada – de amor e ódio –, hoje em dia é difícil encontrar quem nunca tenha pensado em fazer uma.As motivações são inúmeras: homenagear pessoas queridas, criar uma identidade, dar up no visual, marcar uma fase da vida, por modismo…No entanto, é preciso cautela. Segundo pesquisa realizada pelo portal de empregos Catho Online, 26,2% das empresas evitam contratar quem tem tatuagem ou piercing – esse levantamento, de abril de 2011, contou com mais de 46 mil participantes.

Já na enquete que rolou no hotsite do Campus ao longo da semana, o público jovem deixou clara sua opinião: a tattoo ainda atrapalha na hora de conseguir um serviço (alguns comentários aparecem em destaque na seção Mural, na página 47; confira o balanço completo no endereço (www.atribuna.com.br/campus).

Resistência camuflada

É fato: apesar de tímido, o preconceito contra a tatuagem persiste no mercado de tr abalho. Porém, a coordenadora do departamento de vagas do portal de empregos Manager Online, Marian Tomei Costa Barros, alerta que é ilegal (discriminatório) uma firma exigir que os funcionários não possuam tattoos. “Em nenhuma hipótese aceitamos esse tipo de critério na triagem que fazemos. Agora, o que acontece na entrevista depende do empregador. Só que costuma ser algo velado”.

O tatuador Adão Rosa está há 10 anos no ramo. Ele já fez mais de nove mil tatuagens em seus clientes – algumas delas, inclusive, em lugares inusitados. Mas, mesmo sendo apaixonado pela arte, orienta: “Sempre aconselho o pessoal a tatuar partes do corpo que possam ser escondidas durante o expediente. Por mais que abomine as empresas que julgam os funcionários que carregam um desenho na pele,o cliente deve estar ciente dos efeitos da sua decisão”.

Na área certa

De acordo com Claudia Callé, consultora de recrutamento e seleção da Thomas Case & Associados, de São Paulo, é muito importante que, antes de fazer uma tattoo, a pessoa reflita sobre a realidade da carreira que escolheu. “As áreas de Direito, Saúde, Economia, Consultoria e Auditoria têm certa relutância em aceitar profissionais com tatuagens. O que não ocorre, por exemplo, nos segmentos de Moda, Arquitetura, Artes e Comunicação (Jornalismo,Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV)”.

Vale dizer que tudo depende, também, se a empresa tem perfil conservador ou não. “As regras comerciais são feitas por pessoas e elas têm suas crenças, que podem confrontar com os símbolos das tatuagens dos candidatos”.

Tarefa Difícil

“O publicitário deve ser criativo, diferente, único, e a tattoo mostra bem isso. Acho que nos destaca dos demais”, afirma Thalita Caetano, que tem quatro tatuagens e cursa Publicidade e Propaganda na Esamc. No entanto, como trabalha em banco, cobre diariamente os desenhos no pulso, pé, braço e perna com o típico traje social. “Isso nunca foi solicitado, mas tenho bom-senso. O banco conta com um ambiente mais formal e as minhas tattoos não precisam ficar à mostra lá. Não vejo problema em escondê-las nessas horas”.

Tarefa difícil – ou quase impossível – é ter de ocultar 18 tatuagens todo santo dia. Cauan Capolupo Castro, 24 anos, que o diga. Aluno de Desenvolvimento e Tecnologia da Universidade Católica de Santos (UniSantos), ele lembra que, quando atuava na área de suporte para rede de computadores de uma empresa, vivia de calça e camisa de manga comprida.

“Minha meta daqui para frente é trabalhar de forma mais confortável, sem precisar esconder as tattoos. Vou conseguir isso nem que tenha de mudar de ramo ou ingressar em uma atividade empreendedora. Não pretendo deixar de fazer algo de que realmente gosto por causa da profissão”, observa o estudante, que, hoje, desenvolve sistemas para firmas da própria casa.

Ele entrou em contato com o universo da tatuagem de maneira natural: além de um dos seus irmãos ter um estúdio, foi influenciado desde cedo pelo estilo que classifica como underground e pesado. E mais: as únicas partes não tatuadas do corpo de Cauan são as coxas, costas e cabeça. “Essas áreas não estão cobertas por enquanto! A meta é fechar o corpo”.

A maioria dos desenhos que Cauan carrega está relacionada a momentos que marcaram sua vida. “Represen tam a minha família, amigos, músicas, fé e até alguns amores e decepções do passado. Outras tattoos não têm significado especial, são apenas coisas que acho bonitas”. Ele acrescenta que, após os 40, quando tiver uma carreira estabilizada, planeja fazer tatuagens no rosto.

Cauan Castro fazia o possível para esconder suas 18 tatuagens no ambiente de trabalho. Agora, prioriza empregos em que não precisa escondê-las

Teste do espelho

Não há dúvida de que a sociedade valoriza – e muito – a imagem. Justamente por causa disso, o jeito como nos apresentamos no ambiente de trabalho faz a maior diferença. “É preciso tomar cuidado com o espelho. A pessoa tem de levar em conta o que o seu visual transmite. A tattoo pode ter um significado para quem a carrega, mas será que todo mundo a interpreta da mesma forma?”, comenta a consultora Claudia Callé.

Para fazer uma tatuagem e não comprometer a carreira, ela recomenda desenhos menores e mais neutros, q ue não remetam a nenhuma crença ou time de futebol.E se o profissional pertence a uma área mais conservadora e mesmo assim decide deixar o seu estilo estampado na pele, Viviane Fernandes, psicóloga e analista de Recursos Humanos do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), aconselha: “Ele deve encarar o risco. Toda atitude tem uma consequência, seja a curto ou longo prazo. No entanto, não quer dizer que o retorno será sempre negativo”.

É o que espera Sarah Mauger Campos, 22 anos, que cursa Direito na UniSantos e tem seis tattoos. Como estagia em um escritório de advocacia, tenta
cobrir todos os desenhos. Só que, quando estiver formada, imagina que, por mais que um cliente questione o seu trabalho por causa das tatuagens, a competência vai estar acima de qualquer coisa. “A eficiência deve se sobressair”.

 


Ariel Cannal

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